Mercadores da Noite #281: Jogo Brasil – mais um trecho inédito

18 de junho de 2022
Nestas crônicas Os Mercadores da Noite, disparadas aos sábados, já publiquei dois trechos de meu livro Jogo Brasil. Como a repercussão tem sido boa, com ótimo retorno dos leitores, pretendo continuar exibindo alguns capítulos. Hoje segue mais um.

Caro(a) leitor(a),

Nestas crônicas Os Mercadores da Noite, disparadas pela Inv aos sábados, já publiquei dois trechos de meu livro Jogo Brasil. Como a repercussão tem sido boa, com ótimo retorno dos leitores, pretendo continuar exibindo alguns capítulos.

Hoje segue mais um:

No sete de setembro pela manhã, quando Simone Ferreira chegou ao EME, já encontrou Sérgio Vilhena na sala de operações, fumando escancaradamente.

No feriado, pode’, ele exibiu o cigarro, ‘porque fico sozinho aqui.’

Simone ainda pensou em perguntar se a presença dela não contava, mas desistiu. Achou que ele poderia ficar aborrecido. Ela queria aproveitar ao máximo o dia para se relacionar com Sérgio. ‘Muita gente já se criou no banco à custa dele’, Rochinha lhe dissera na véspera, durante o almoço.

Eu parei há três meses, e a fumaça do cigarro dos outros não me afeta em nada’, ela mentiu, sentindo a maior vontade de fumar um também.

Ao longo da quinta-feira, Simone pôde aprender muito mais do que em seus primeiros três dias de trabalho. Foi uma verdadeira aula particular.

Em determinado momento, Vilhena falou ao telefone com Celso Millani. Este voava em seu Gulfstream IV particular para sua casa de praia na península Nicoya, na Costa Rica, onde iria passar o feriadão com a família. Sérgio informou a Milani que o mundo estava calmo, sem novidades.

Manda um beijo pra ele’, Simone pediu a Sérgio, só para que o patrão soubesse que ela estava ali, trabalhando num dia de folga. Sérgio Vilhena transformou o beijo em abraço e transmitiu o recado.

Eu vou comprar um pouco de aveia para mim’, Vilhena disse para Simone, logo após a conversa com Milani, e começou a digitar uma mensagem em seu laptop.

Aveia?’, Simone não entendeu o que ele iria fazer com aveia e muito menos por que a comprava pelo computador.

É, Aveia Dezembro, na MERC’, ele se referia à Chicago Mercantil Exchange, uma das maiores bolsas de futuros do mundo, na qual eram negociados, entre diversos outros ativos, contratos de grãos. ‘Ganhando ou perdendo, vou vender MOC’, completou Vilhena, com um sorriso irônico.

Simone Ferreira jamais soubera que havia um mercado futuro de aveia mas sabia que uma ordem MOC (Market on Close) seria executada no fechamento do mercado, fosse qual fosse o preço no momento. Assim sendo, Vilhena estava fazendo um day trade (compra e venda no mesmo dia) para si próprio. Se a aveia subisse  ao longo do pregão, ele ganhava. Se caísse, perdia. Mas não era necessário depositar margem de garantia. Apenas embolsaria o lucro ou pagaria o prejuízo.

Ela torceu junto com o colega pela alta da aveia. Alta essa que acabou acontecendo. Ao final do pregão, ele ganhou dois mil e oitocentos dólares.

Parabéns!’, disse Simone. ‘Mas, sem querer ser abelhuda, por que você comprou especificamente aveia?’Por nenhuma razão especial’, ele explicou. ‘Só queria fazer uma especuleta. Escolhi aveia como poderia ter escolhido feijão vermelho na bolsa de Tóquio ou porco vivo castrado lá mesmo em Chicago.’

Simone Ferreira voltou a se lembrar do Rochinha. ‘(O Vilhena) não tem muito interesse por lucros. Gosta mesmo é de arriscar’, ele comentara no Giuseppe Grill.

Após o final do expediente, Vilhena chamou Simone para tomar um drinque por conta da aveia. Chamou mais por chamar, e ficou surpreso com a avidez com que ela aceitou o convite. Ficou surpreso, mas gostou.

Os dois foram ao Esch, uma charutaria, restaurante e café ali mesmo no Leblon. Em meio a snacks, ele bebeu Jack Daniel's e ela, gin tônica. Sérgio comprou e fumou um havana Cohiba Coronas Especial. Simone Ferreira encerrou sua abstinência de três meses com meia dúzia de cigarros, que Vilhena lhe cedeu, sem remorsos.

Nutrindo poucas esperanças de sucesso, ele a chamou para um último drinque em seu apartamento, ali pertinho. Simone vibrou com o convite, mas fez um pouco de cera antes de aceitá-lo. Finalmente disse ‘sim’, interpretando muito mal uma encabulação.

Embora isso não fosse um conjunto rígido de normas autoimpostas, Simone Ferreira jamais fizera sexo no primeiro encontro, muito menos com um homem vinte anos mais velho. Na verdade, não tivera muitos parceiros de cama e com nenhum deles sentira grande empolgação. Suas praias eram ‘matemática’ e ‘subir rapidamente na vida’. Mas deixou que Sérgio a conduzisse ao quarto, fingindo um pouco de relutância.

Até que não foi tão ruim assim’, deduziu Simone, ao final da sessão. ‘Só não quero que isso prejudique minha carreira’, temeu. ‘Acho que fui fácil demais’..

Enquanto ela tomava banho, Sérgio Vilhena foi para a cozinha e preparou uma massa, que comeram com avidez, acompanhando-a com um tinto. Após o jantar, ela desceu e pegou um táxi para casa.

Você já jantou?’, perguntou a mãe, Luísa, assim que Simone entrou no apartamento do Catete.

Já, jantei com um amigo. Tomei alguns drinques e estou morrendo de sono’, Simone não tinha a menor intenção de revelar o episódio Sérgio Vilhena, com seus detalhes sórdidos: ‘primeiro encontro’, ‘colega de trabalho’, ‘homem mais velho’. Só não conseguiu evitar que a mãe percebesse que ela estava de cabelo molhado. Luísa fingiu ignorar o detalhe do cabelo mas não deixou passar em branco o bafo de cigarro da filha.

Você andou fumando.’

Foi a tensão do primeiro emprego, mãe. Mas juro que vou parar de novo.’

Se o pai, Mário Ferreira, ficou intrigado com a cara da filha, que parecia a de um gato que comera o peixinho do aquário, ele não deixou que isso transparecesse.

Só espero que o Sérgio não aja como um fedelho, desses que acham que contar para os amigos é melhor do que comer’, pouco depois Simone murmurou para si mesma, já na cama, enquanto tateava a mesinha de cabeceira em busca de um maço de cigarros que deixara ali havia semanas para o caso de uma crise de abstinência.

Em seu apartamento, Vilhena, escarrapachado num sofá da sala em frente à TV, e acendendo um cigarro no toco do anterior, recomendava-se:

Sérgio, você não vai se apaixonar por essa fedelha. Se fizer isso, vai quebrar a cara.’

No dia seguinte, sexta-feira, 8 de setembro de 2006, Sérgio Vilhena não foi ao banco. Simone decepcionou-se com a ausência dele. Em determinado momento, como que incidentalmente, perguntou ao Duda:

Cadê o Sérgio?’, ela apontou para a cadeira mais alta, vazia, na cabeceira da mesa de operações.

O Sérgio? Ah, toda vez que trabalha em feriado brasileiro, ele enforca o dia seguinte. A não ser quando há algo importante acontecendo.’

Algo importante… Sei’, ela apertou os incisivos contra o lábio inferior.”


Um ótimo fim de semana pra todos,

Ivan Sant’Anna

Conheça o responsável por esta edição:

Ivan Sant'Anna

Trader e Escritor

Uma das maiores referências do mercado financeiro brasileiro, tendo participado de seu desenvolvimento desde 1958. Atuou como trader no mercado financeiro por 37 anos antes de se tornar autor de livros best-sellers como “Os Mercadores da Noite” e “1929 - Quebra da Bolsa de Nova York”. Na newsletter “Mercadores da Noite” e na coluna “Warm Up PRO”, Ivan dá sugestões de investimentos, conta histórias fascinantes e segredos de como realmente funciona o mercado.

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