Do Mercado #25: Efeitos impossíveis de prever

8 de novembro de 2021
É importante manter a cautela sobre as expectativas do mercado diante das últimas notícias do Fed, que dará início ao tapering. Na prática, a história pode se desenrolar de outra forma.

 

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Na última quarta-feira (3), o Banco Central americano (Fed) se reuniu para o famoso FOMC (Federal Open Market Committee), o comitê de política monetária do Fed que ocorre a cada 45 dias para tomar uma decisão sobre as políticas monetárias.

Ao invés de comunicar mudanças, o Fed decidiu começar o tão esperado tapering, uma redução no tamanho das compras mensais que vinha realizando. 

Essas compras, também conhecidas como quantitative easing, eram um complemento à política de juro zero. Mas a estratégia foi praticamente exaurida, uma vez que começou a ser feita por Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, em meados de 2001. 

Para garantir os efeitos mais fortes desse programa de “reinflação” de ativos, que era o objetivo dessas políticas, criou-se um programa no qual eles compravam 120 bilhões de dólares por mês: 80 milhões eram de títulos do tesouro americano e 40 bilhões de dólares de títulos privados, cujas garantias eram as hipotecas de alta qualidade, somando,  no total, os 120 bilhões de dólares. 

Na reunião da semana passada, foi anunciado que haverá uma redução de 15 bilhões de dólares, distribuídos da seguinte forma: 10 bilhões de dólares em títulos do tesouro e 5 bilhões de MBS (Mortgage-backed securities, ativo privado que tem como garantia as hipotecas). 

E já foi adiantado que na próxima reunião, estando tudo mais constante, haverá mais uma redução de 15 bilhões de dólares, novamente 10 bilhões em treasuring e 5 bilhões em MBS, e assim sucessivamente. 

Para que esse nível de fluxo chegue a zero serão necessárias oito reuniões; assim, a data para o final do programa de compras fica para 21 de setembro de 2022, a contar a partir desse último anúncio.

Ainda que essa decisão tenha sido muito bem comunicada, a ponto que, na véspera, a volatilidade dos ativos estava bastante baixa e a bolsa americana estava na máxima, essa novidade e esse comprometimento com reduções progressivas na quantidade de compras não impactou de forma negativa o mercado, que reagiu muito bem.

O mercado está preparado, mesmo depois de inúmeros atrasos do presidente do Fed, Jerome Powell, que dizia que faria tudo de forma bem tranquila e lenta, afirmando que tudo iria dar certo e não havia motivos para preocupação. 

No entanto, a questão que aqui levanto é a seguinte: não importa o quanto você avisa sobre determinada situação, a comunicação é fundamental.

Podemos comparar com as problemáticas do Brasil, onde a comunicação foi extremamente falha se compararmos com o modo de agir do Banco Central americano.

Mesmo com uma comunicação bem desempenhada e clara, quando a redução começar podemos ter efeitos diferentes do esperado e muitas vezes não é possível precificá-los ou antecipá-los.

Para exemplificar melhor, trago um exemplo hipotético: 

Daqui a um mês, eu deixarei de consumir algum produto frequente em minha rotina, e não importa o quanto eu me prepare psicologicamente para esse fim, na hora que isso começa a sair da minha rotina surge um efeito que é impossível de prever ou antecipar: o efeito da redução desse fluxo real

Daqui em diante, diferentemente do mundo que temos vivido há um ano e meio, com níveis recordes de estímulos, teremos, gradativamente, menos dólares sendo impressos e menos intervenções do Banco Central, o que pode ocasionar um choque e uma mudança na forma como o mercado opera, levando a um patamar imprevisível. 
Começamos a entrar em um mundo diferente e acredito que, lá fora, a ideia é agir com cautela. Essa é a primeira vez que saímos de um período tão longo, grande e forte de expansão monetária para começar agir mais calmamente. 

Eu discordo um pouco da euforia dos mercados, julgo que ainda há novas coisas para acontecer em breve, mas, de qualquer forma, foi o que aconteceu. 

Nesse cenário, vale a pena ter um pouco mais de pé no chão e um pouco menos de apetite aos riscos.

Essa foi a Do Mercado de hoje! Espero que tenha gostado!


Um abraço,

Rodrigo Natali.

 

Conheça o responsável por esta edição:

Rodrigo Natali

Estrategista-Chefe

Rodrigo Natali tem graduação e MBA pela FGV. É especialista em câmbio e macroeconomia, tem 25 anos de experiência no mercado financeiro, tendo passado por diversas instituições nacionais e internacionais onde exerceu a profissão de trader e gestor de fundos de investimento multimercado.

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