Do Mercado #24: Banco Central: Desconstruindo sua própria credibilidade

1 de novembro de 2021
Hoje, analisaremos juntos a decisão do Copom, que subiu em 1,5% a taxa de juros base da economia, a Selic. Acredito que isso foi um grande erro e vou explicar por quê.
 

 

Bem-vindo(a) a mais uma edição da “Do Mercado”!

O Copom anunciou na quarta-feira passada, dia 27 de outubro, que aumentaria a taxa Selic em 1,5%. Eu não concordo com a decisão e vou explicar por quê.

A história começa a se modificar uma semana antes da reunião do Copom do dia 27, quando o ministro da economia, Paulo Guedes, anunciou que iria furar o teto de gastos, o que foi um grande problema, porque desde sempre o ministro enfatizou que nunca faria isso; o efeito seria catastrófico. 

E, na sequência desse anúncio, os dois principais secretários do ministério da economia acabaram pedindo demissão, gerando ainda mais confusão. 

Na prática, o que aconteceu era previsto. Todo o mercado financeiro, a imprensa e as pessoas que acompanham o presidente Jair Bolsonaro sabem que a principal agenda dele para o segundo semestre era aprovar algum tipo de auxílio para as classes menos favorecidas. O auxílio emergencial no valor de R$ 400 era amplamente conhecido.

E a única forma de realizar esses pagamentos era através do furo do teto de gastos. 

Quando a notícia saiu, não deveria ter sido uma surpresa para tanta gente, mas aconteceu o contrário. 

O mercado ficou extremamente revoltado, agiu de forma bem drástica, o dólar subiu bastante e, em coro, os economistas de bancos e casas de análise começaram a pedir para o Banco Central aumentar a Selic em 1,5%. 

Entretanto, já havia um consenso de que: 1% era um ritmo suficiente

Por alguns motivos, esse percentual de 1,5%, para mim, não faz muito sentido…

Veja, aumentar a quantidade de gastos via juros custa dinheiro. A cada 1% a mais que se gasta no estoque de juros da dívida, o custo aproximado é de R$ 67 bilhões para os cofres públicos. 

Então estão reclamando de um gasto de R$ 30 bilhões, mas estão dispostos a gastar R$ 67 bilhões. E mais, os juros futuros de três meses passaram de 9,5% para 12,5%, uma alta de 3%.

É punir gastos com mais gastos, o que não faz sentido.

Se os juros sobem mais agressivamente, isso se reflete na economia fazendo com que ela desacelere. 

Há quem acredite que no ano que vem teremos um PIB caindo 0,5%, meio por cento. E se começarmos a incorporar todas essas novas altas, onde será que pode chegar o PIB?

O PIB mais fraco, em queda, prejudica a arrecadação e faz com que a inflação caia naturalmente.  

E é provável que no ano que vem, em 2022, tenhamos fatores positivos para a inflação.

Temos uma combinação de fatores que sugere que não há um descontrole econômico, mas um gasto maior, que é de ciência de todos, porém foi mal comunicado. De repente, em coro, as pessoas pedem para que o Banco Central seja mais agressivo; e o BC ouve.

Ao adotar essa conduta, erra novamente.

Quando o mercado estava pedindo mais intervenções erráticas, o BC se posicionou da mesma maneira, mas de nada adiantou, o dólar subiu de qualquer forma.

Então, novamente, o mercado pediu mais uma alta nos juros. O BC acatou o pedido e no dia seguinte à reunião do Copom o efeito foi negativo. Isso mostra que não adianta tentar seguir o que essas pessoas têm sugerido, pois, é um erro. 

Seria bem mais positivo se o Banco Central se portasse com mais independência, assim como os outros bancos centrais, e seguisse a sua própria cartilha

Na reunião do Copom anterior a esta última, o BC afirmou  que  iria subir a Selic em 1%, um ritmo adequado à nossa realidade

Apesar disso, inesperadamente, mudou a sua posição… Isso anula totalmente a credibilidade do Banco Central. Obviamente, a confiança fica abalada.

Mas, para não parecer impossível que o BC se imponha em cima das expectativas do próprio mercado, citarei dois exemplos:

     1. Em abril, quando a inflação começou aparecer nos Estados Unidos, as taxas de juros americanas começaram a subir, prevendo que a inflação poderia sair do controle. 

Jerome Powell, presidente do Fed, afirmou que nada mudaria em sua política e que julgava que a inflação fosse transitória. 

No dia seguinte, todas as taxas caíram porque as pessoas acreditaram que o Fed estava correto. 

     2. Na quinta-feira passada, o Banco Central europeu e o Banco Central do Japão também apresentaram suas decisões.

O Banco Central europeu tomou a decisão de continuar com mais estímulos, mesmo com algumas pessoas lá dentro esperando por medidas de combate à inflação. 

Christine Lagarde, presidente do Banco Central europeu, veio a público dizendo algo como: “eu sei que haviam expectativas, mas elas estavam erradas. O Banco Central europeu tem um plano, uma missão, e isso foi comunicado, porém, vocês entenderam errado, por isso as apostas erradas”.      

Normalmente, quando se é menos agressivo na hora de normalizar a economia, a sua moeda sofre. E, com essa informação, em tese, o euro deveria cair, mas o contrário aconteceu: a moeda subiu 0,5%.

As pessoas estavam inseguras, mas, ao ouvir e acreditar na palavra do Banco Central europeu, elas simplesmente zeraram as suas posições. 

Ao contrário do que acontece por aqui: o Banco Central, a pedido do mercado, tem desconstruindo sua própria credibilidade, a ponto de fazer o que as pessoas pedem e gerar reações contrárias; o dólar subiu, a bolsa despencou e o mercado de prefixados subiu até níveis recordes. 

 

Espero que tenha gostado!


Um abraço,

Rodrigo Natali.

 

Conheça o responsável por esta edição:

Rodrigo Natali

Estrategista-Chefe

Rodrigo Natali tem graduação e MBA pela FGV. É especialista em câmbio e macroeconomia, tem 25 anos de experiência no mercado financeiro, tendo passado por diversas instituições nacionais e internacionais onde exerceu a profissão de trader e gestor de fundos de investimento multimercado.

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