Do Mercado #35: Como nunca visto antes

17 de janeiro de 2022
Nesta nova edição, Rodrigo Natali apresenta e explica as atuais movimentações e posições do mercado nacional e do investidor brasileiro. Circunstâncias extremas antes nunca presenciadas.
 

Bem-vindo (a) a mais uma edição da Do Mercado!

O brasileiro nunca esteve tão comprado em dólar como agora. E, analisando alguns dados, começando pelo estoque de swap que o Banco Central vendeu para o mercado ao longo dos últimos cinco anos, atualmente, esse estoque está a cerca de 98,8 bilhões de dólares. 

Supondo que os juros brasileiros arredondem para 10%, para quem estiver comprado nessa posição de praticamente 100 bilhões, caso o dólar não suba, o mercado irá ter que pagar 10% sobre esse valor com o custo de carregamento. 

Isso é: 10% de 100 bilhões de dólares são 10 bilhões de dólares, ou 55 bilhões de reais

Há também outros grandes números em recordes nunca vistos. Anteriormente, nunca houve um estoque tão grande de BDRs como agora. Novos papeis na bolsa que começaram a operar em outubro de 2020. 

A compra de novos BDRs se tornou uma "moda" e até um refúgio para quando a bolsa começa a cair e isso se dá pela impressão de que essas compras é um porto seguro, como uma proteção contra as baixas do mercado local. 

Em simultâneo, quando o mercado brasileiro se deteriorava, o dólar subia (parte da rentabilidade do BDR) e a bolsa americana também, fazendo com que os papéis subissem por dois motivos…

A impressão que se tinha era que comprar ações lá fora era um tipo de hedge para quem está aqui no Brasil. 

Mas, essa não é uma verdade!

Esse é um risco de bolsa, e está sujeito a cair como no mercado brasileiro, descendo ou subindo, pois, não há uma correlação direta entre as duas coisas. O real também pode ficar apreciando por dois anos, e repentinamente, pode começar a depreciar. 

E ao analisar a situação lá fora, esse é o caso do dólar.

Outro fenômeno é que muitas pessoas físicas, sem notar, estão compradas em câmbio. Nunca houve tantos fundos multimercados com posições fora do Brasil, — lembrando que um fundo multimercado é um grupo de pessoas físicas operando sob a tutela de um gestor — e através do fundo as pessoas estão compradas em câmbio.

Nunca houve tantas compras de criptomoedas e hoje já existem mais de 10 milhões de contas brasileiras em cripto. Todas as vezes em que uma compra de criptomoeda é realizada, um dólar é comprado, pois, as criptos são ativos operando em moeda internacional.

Logo, por todos os lados há muito dólar na mão de brasileiro. Mesmo sem contar que, praticamente, toda geração de caixa das empresas exportadoras de receita lá fora não foi internado, ou seja, repatriado para pagamento de despesas locais, em reais. Cerca de 80% permaneceu lá fora.

Mas, esse dinheiro terá que entrar no mercado nacional em um determinado momento para que salários sejam pagos, para realizar investimentos em plantas, etc. E o mesmo se aplica para o overhedge.

Tivemos uma grande saída dos bancos no final do mês de dezembro (o Banco Central teve que realizar leilões de pronto para conter essa demanda), fato esse que nem mesmo foi comentado e somado neste contexto. 

Analisando todos esses e os demais aspectos, o Brasil nunca deteve tanta posição comprada em dólar como agora. 

Normalmente, quando as coisas estão caminhando para algum extremo, elas tendem a voltar para o equilíbrio. E para isso acontecer, não será necessário que a moeda despenque ou que a bolsa lá fora comece a cair, basta apenas que as coisas fiquem paradas.

Afinal, os custos dessa posição de dólar é a Selic, mas, é importante lembrar que há um ano esse custo era de 2%, entretanto, no próximo mês esse custo será de 11%.

Talvez o custo de 11% sobre esse estoque gigante não deva valer a pena para quem está carregando essas posições. 

E quando todos perguntavam: “O gringo está vindo para o Brasil para vender câmbio e super faturar com isso?” o contrário acontecia.
Mesmo se o estrangeiro ficar vendido em nossa moeda, ele ganha os 11% mesmo se a moeda ficar parada.

O Brasil está fora do mapa e fazia muito tempo que esse tipo de fluxo não acontecia. 

Na quarta e na quinta-feira da semana retrasada, pela primeira vez em anos, o estrangeiro começou a vir para o Brasil e vender forwards (posições em derivativos de um ano em dólar). 

Esse fluxo chegou a ser tão grande que em meados de 2006 e 2007, diariamente entrava cerca de 200 milhões de dólares no mercado nacional e foi nessa época em que o brasileiro fez a maior parte de suas reservas, as quais, hoje estão sendo desfeitas. O fluxo era tamanho que na época os leilões de compra do Banco Central foram apelidados de ração diária.

Resumindo: os brasileiros estão totalmente comprados em dólar e os estrangeiros começam a vender aqui no mercado nacional, pressionando fortemente a posição técnica, ficando assim bem fácil, sobre um ponto de vista técnico, de o dólar cair.

O que falta é um pouco mais de confiança dos brasileiros na economia nacional. Já temos os fatos, agora precisamos de um pouco mais de otimismo.

Espero que tenha gostado desta edição!

 

Um grande abraço,
Rodrigo Natali.

Conheça o responsável por esta edição:

Rodrigo Natali

Estrategista-Chefe

Rodrigo Natali tem graduação e MBA pela FGV. É especialista em câmbio e macroeconomia, tem 25 anos de experiência no mercado financeiro, tendo passado por diversas instituições nacionais e internacionais onde exerceu a profissão de trader e gestor de fundos de investimento multimercado.

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