Mercadores da Noite #277: Jogo Brasil

21 de maio de 2022
"A última coisa que a gente deseja na vida é pagar imposto de renda pra esses picaretas do governo." Jogo Brasil é uma ficção ambientada no mercado financeiro nacional que permanece adormecida no HD de meu computador.

Caro(a) leitor(a),

Há aproximadamente dez anos, escrevi uma ficção ambientada no mercado financeiro nacional. Concluído o trabalho, submeti o texto a algumas editoras. Todas deram a mesma resposta:

“Gostamos da história, mas você vai ter de suprimir, ou modificar, algumas passagens. Elas são extremamente incorretas politicamente.”

Como abomino censuras, desisti da publicação. E Jogo Brasil permanece adormecido no HD de meu computador.

Só que há diversos trechos que, por qualquer ângulo que se os analise, não tem um pingo de incorreção política. Outro dia transcrevi um deles em minha coluna Warm Up Pro, que vai ao ar às segundas, terças e quintas-feiras aqui na Inv Publicações .

Hoje vou divulgar o capítulo seguinte:

Sérgio Vilhena

Na manhã de segunda, 4 de setembro de 2006, Simone Ferreira foi de metrô do Largo do Machado até a estação terminal sul, Siqueira Campos. Lá, pegou um ônibus para o Leblon. Desceu na avenida General San Martin e caminhou duas quadras e meia até o prédio do EME, na Ataulfo de Paiva. Se apresentou na recepção e foi encaminhada ao chefe da mesa de operações, Antônio Carlos Tevez.

O encontro se deu com ambos de pé, ao lado da mesa.

“Você vai se sentar ali”, Tevez, que era mais conhecido por seu apelido, Rochinha, apontou com o indicador direito para um lugar vago.

“Mas… mas… Simone gaguejou”, o Milani não me explicou nada. O que é que eu vou fazer?”, ela diminuiu o tom de voz, para que ninguém mais a ouvisse.

“Quanto vou ganhar? Não tem um período de estágio antes?”

“Nada de estágio. Não pra quem tá chegando do MIT. Seria perda de tempo”, Rochinha abriu um sorriso franco. “Você vai operar futuros e opções. Quanto ao salário, bem… o salário vai ser o normal de quem está começando na mesa. É merreca, coisa de cinco ou seis mil reais, fora os benefícios, plano de saúde, esses trocos.”

Embora até aquele momento achasse que iria ganhar apenas um simbólico salário mínimo, ou pouco mais, durante um período de avaliação, Simone Ferreira conteve sua euforia in pectore.

“É mais ou menos o que eu supunha”, ela deu de ombros.

Mas ninguém aqui trabalha por salário”, Rochinha apressou-se em explicar, receando que a outra estivesse decepcionada. “O que vale é a participação nos lucros, os bônus, essas porras, que a gente chama de bicho, tudo pago por fora, lá fora. O banco não quer saber de encargos trabalhistas dos traders e, de nossa parte, a última coisa que a gente deseja na vida é pagar imposto de renda pra esses picaretas do governo. Bicho por dentro é só para a arraia-miúda”, Rochinha apontou com o queixo para o pessoal de apoio (back office) na ponta da mesa. “azpi lasterketarako”, desdenhou (e eu escrevi em basco, para não me complicar).

Primeiro Simone Ferreira ficara sabendo que iria ganhar bem. Cinco ou seis mil, ele dissera. Depois soube que haveria gratificações. Tudo sem ter sido submetida a um teste sequer. Parecia estar vivendo um sonho.

“Ok”, ela limitou-se a concordar, cravando as unhas nas palmas das mãos de pura alegria, alegria essa que continuou camuflando.

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A plataforma de operações do EME, onde eram negociados taxas de juro, câmbio, ações e commodities, ocupava quase um andar inteiro do prédio. Os operadores se sentavam nos dois lados das mesas. Cada um tinha dois ou mais laptops abertos à sua frente. Nas telas, eram exibidas cotações dos diversos mercados, as últimas notícias, gráficos, tabelas, planilhas, etc. Os profissionais compravam e vendiam os mais variados ativos através de mensagens de MSN e chats, e não mais por telefone, sistema de negociação que ficara obsoleto após quase um século de uso.

O berreiro das salas de operação de antigamente havia sido substituído por um vozerio baixo e continuado, como o da redação de um jornal. O volume e a quantidade de vozes só aumentavam (e, mesmo assim, não muito) quando algo importante acontecia, por exemplo a divulgação de um dado estatístico das economias brasileira e norte-americana.

Um homem logo chamou a atenção de Simone. Sentado num patamar um pouco acima dos demais operadores, Sérgio Vilhena podia observar todas as mesas. Podia também ver os aparelhos de TV presos ao teto – sintonizados nos canais Bloomberg, CNN, BBS, CSN News, além de monitores de cotações, de notícias e de gráficos.

“É o nosso guru, a enciclopédia ambulante do banco”, Rochinha percebeu o interesse dela.

Economista, erudito, poliglota, 48 anos de idade, Vilhena era o principal analista do EME. Cabia a ele, através de um pequeno microfone na ponta de uma haste curva junto à sua boca e ligado aos alto-falantes da sala de operações, interpretar para os colegas as notícias que chegavam do Brasil e de outras partes do mundo.

Sérgio Vilhena só não fumava mais de dois maços por dia porque no trabalho era proibido. Mas ia à forra à noite e nos fins de semana, quando alternava suas baforadas com tragos generosos de Jack Daniel’s cowboy. Em seu boletim semanal sobre o mercado, exclusivo para o pessoal do EME, ele dava um jeito de citar Eça, Borges, Balzac, Pessoa, Mark Twain e Nelson Rodrigues.

Vilhena morava num quarto e sala da rua João de Barros, no Leblon, próximo ao EME, segundo ele próprio o mais espaçoso quarto e sala do Rio. Não se tratava de nenhum exagero, pois a configuração dos cômodos do apartamento era resultado da derrubada de diversas paredes de um quatro quartos.

Enquanto Simone Ferreira tentava se familiarizar com o que seria o seu equipamento de trabalho, surgiu numa das telas a notícia de um ataque a bomba no mercado popular de Peshawar, no norte do Paquistão.

“Sem a menor importância”, Sérgio Vilhena apressou-se em dizer ao microfone. “Morreram apenas dezoito pessoas, provavelmente uns comerciantes e umas velhinhas que faziam compra no mercado. Um non-event. Aposto que nem o Bush será avisado.”

Se alguém das mesas se comoveu com a morte das velhinhas paquistanesas, guardou o sentimento para si.

No final da manhã, Celso Milani chegou à  sala de operações. Foi recebido com total informalidade pelos traders. Deu tapinhas nas costas de alguns, fez perguntas para outros. A maioria nem notou sua presença. A hierarquia no EME se manifestava apenas nas decisões corporativas, jamais em algum tipo de subserviência ou puxa-saquismo.

Milani foi até o lugar de Simone. Parou junto à cadeira dela e perguntou:

“Como é que está o mercado?”

Pega de surpresa – ainda tentava se entender com os números e dizeres da tela, no que era auxiliada pelo Duda, um operador de opções sentado à sua esquerda -, Simone Ferreira hesitou um pouco, muito pouco, antes de responder:

“Os longos de DI estão abrindo.” Isso significava que as cotações dos contratos futuros de taxas de juros com vencimentos mais distantes estavam em alta, sinal de que o mercado apostava num aumento da inflação e consequente ampliação das taxas nominais. Simone acabara de ver o lettering “Os longos de DI estão abrindo” em seu terminal e resolvera repetir a frase para Celso Milani, como se fosse uma avaliação dela própria.

Se Milani ficou impressionado com a familiarização rápida da nova contratada, ele não externou sua surpresa. Limitou-se a balbuciar um “OK”, seguido de uma puxadinha carinhosa num fio de cabelo de Simone, e seguiu em frente em sua promenade pelas trading desks

Um ótimo fim de semana para todos. 

Ivan Sant’Anna

Conheça o responsável por esta edição:

Ivan Sant'Anna

Trader e Escritor

Uma das maiores referências do mercado financeiro brasileiro, tendo participado de seu desenvolvimento desde 1958. Atuou como trader no mercado financeiro por 37 anos antes de se tornar autor de livros best-sellers como “Os Mercadores da Noite” e “1929 - Quebra da Bolsa de Nova York”. Na newsletter “Mercadores da Noite” e na coluna “Warm Up PRO”, Ivan dá sugestões de investimentos, conta histórias fascinantes e segredos de como realmente funciona o mercado.

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